domingo, 29 de outubro de 2017

Querido diário.



- Sabe o que eu queria, pequena folha de papel? Eu queria um pedaço do mundo, queria um pedacinho só pra mim, queria uma estrela na palma da minha mão e uma fatia do mar pra acompanhar. Também queria um pouco de cheiro de mãe num frasco, só pra matar a saudade. Ah, acho que mereço um pouco da lua,  será que faria falta pro resto do mundo se eu tirasse só um pedacinho?- indagava Karen ao seu diário.
 Era noite de lua cheia, havia pouca gente naquela cidade pequena, como sempre, mas já se passavam das nove, e as pessoas não saíam a essa hora, não não. A partir das nove, as pessoas acompanhavam A novela, pra no dia seguinte sentar na calçada e se intrigar do por quê a vilã sempre se dá bem, e aguardar ansiosamente pelas nove horas, pelo próximo capítulo, pelo próximo assunto. Mas Karen não gostava de novelas, ela gostava do seu diário e de imaginar como seria um amor verdadeiro. Gostava de sonhar com borboletas que poderiam rodar no estômago e de imaginar um pedaço do mundo no seu bolso.
 Naquela noite, fazia um pouco de frio, a mãe de Karen gritara que choveria, mas ela apenas ignorou, pegou a caneta e seu companheiro de papel. Partiu rumo ao quintal.
 Chegava a ser belo o modo como os olhos redondos e castanhos de Karen brilhavam enquanto ela deitada, observava cada estrela, mesmo sem saber o nome de qualquer constelação, ela observava cada uma delas, desejava-as enquanto mexia nos cabelos encaracolados de maneira maníaca, mas ainda assim doce. Karen era doce, ela era diferente de todo aquele povo e de todos os fãs de novelas. Karen só queria fazer uma vida, escrever sua própria história, nem que seja nas folhas surradas do diário que ela possuía.
 Perdida em desejo do mundo, Karen até se esqueceu do diário naquela noite e decidiu conversar com a própria consciência:
 - Sabe, sei que é errado, mas sinto inveja, sinto inveja das estrelas e de como elas podem ser oportunistas como são: aparecem só quando querem, e só quando necessitamos delas. Aparecem pra nos dar apoio e segurar as lágrimas. A humanidade sabe tão pouco sobre as estrelas que talvez nem caiba a elas o nome de "estrelas", acho que elas são mais do que isso. Cada pontinho de luz no céu escuro sabe de tudo um pouco, conhece o mundo por inteiro, e eu aqui enraizada nessa cidade, dependendo do céu pra imaginar o mundo. Cada pontinho de esperança que habita sob a minha cabeça compartilhou lágrimas, sorrisos, verdades e brincadeiras, com cada um que clamasse por companhia.
 - Talvez as estrelas também só precisem de companhia. E você também .


 Uma voz grave surgiu no breu, e duas novas estrelas também surgiram diante de Karen, não eram bem estrelas, eram dois olhos azuis que brilhavam tanto quanto os seus. Era um moço bonito, ao menos á noite. Havia covinhas no seu sorriso e foi o bastante pra fazê-la sorrir de volta.
 - Me desculpe, acho que te assustei um pouco, certo? 
 - O suficiente pra eu parar de falar sozinha. - ela respondeu tímida .
 - Na verdade, percebi que nunca tem ninguém fora de casa nessa cidade a essa hora, mas decidi sair, ouvi uma voz, e decidir vir ver. Não quis interromper, sua conversa consigo mesma parecia mais interessante do que qualquer novela que eu já tenha assistido, mocinha. Posso me sentar com você? 
 - Você é um rapaz bonito sabe, muito bonito, extremamente bonito, e eu não estou te cantando. Mas, infelizmente não posso conversar com estranhos, então se puder falar seu nome, aí sim esteja a vontade para sentar-se comigo e compartilhar o céu .
 Os dois riram, de maneira amigável, era como se se conhecessem há muito tempo. Ele olhou para o céu como se pedisse ajuda, se ajoelhou , com um sorriso de canto de boca segurou nas mãos de Karem como se fosse pedi-la algo muito importante:
 - Moça, meu nome é Marcos. 
 Ele olhou na alma dela quando disse, ela sentiu o coração bater mais devagar e se perguntou " Mas que diabos?!". No estômago haviam borboletas revirando-o e fazendo com que suas mãos congelassem de repente. Ela retomou o fôlego e cambaleou entre as palavras: 
 - O meu , o meu nome é ..
 Ele a interrompeu com um beijo. 
 "Mas quanta ousadia", pensou Karen, apesar de não tê-lo impedido.
 - Acho que mereço um motivo pra te ver novamente. Acho que saber o nome da menina-dos-olhos-castanhos-que-me-beijou-sob-as-estrelas, é um bom motivo pra um reencontro. 
 Marcos sorriu novamente, se levantou e foi andando, então parou pra um último olhar. Mirou para Karen aquelas duas estrelas, e fez ela sorrir de volta ao ver as duas covinhas.
 Ela correu para dentro, levando o diário nos braços, fechou a porta e ficou parada apoiada nela, pensando naquele menino, naqueles olhos. Ah, e no beijo. Quando percebeu, já estava sorrindo, sorrindo de maneira boba. Tocou os lábios como se quisesse reviver aquele momento, mas ela queria, ela queria dizer seu nome pra ele, queria dizer pra ele que ficara apaixonada. E ela nem acreditava que era possível.
 E as estrelas dessa vez, foram testemunhas.
 Menina Karen dormiu como um anjo que fora beijado. Um anjo que sabia voar mesmo sem asas. Ela sentia como se pudesse ter um pedaço do mundo agora. 
 Ansiosa, ela viveu o dia seguinte de maneira monótona, e se sentiu semelhante aos seus vizinhos quando se deparou olhando no relógio, aguardando pelas nove horas, de maneira obsessiva. 
 Finalmente, eram nove horas.
 Ela correu pro quintal , não havia muitas estrelas naquela noite, na verdade só haviam nuvens. "Talvez a previsão da mamãe fosse para hoje", pensou ela. Acabou se esquecendo do diário, se sentou, e se sentiu tão sozinha como nunca havia sentido antes. 
 Nove e meia.
 - Acho que Marcos não quis saber meu nome pra não ter que se lembrar de mais um nome de meninas que ele saiu beijando pela noite, fingindo que era diferente de todo mundo. Aposto que ele está rindo da novela, assim como todos os outros, esperando que o mocinho fique com a mocinha, mas ninguém faz esforço pra ser o mocinho na vida real, não, na vida real, todos querem ser os vilões, porque somos treinados a viver um mundo onde os sobreviventes são os espertos. Só ganha quem trapaceia , e o amor não tem trapassa, o amor simplesmente virou fardo de novela e fugiu para o mundo fictício da televisão. As pessoas sempre tiveram medo de amar, as pessoas casam por consequências , as pessoas nem são mais pessoas. São só alimentadas pelo amor que assistem. As pessoas não sabem mais sentir.
 Karen caiu deitada no chão, não sentiu vontade de mexer no cabelo, nem de sorrir. Não haviam covinhas para serem observadas.
 - Menina-dos-olhos-castanhos-que-me-beijou-sob-as-estrelas-ontem, posso saber seu nome?
 - Karen , respondeu ela de forma seca.
 Ele a olhou de maneira piedosa, e sentiu raiva de si mesmo naquele momento, dava pra ver que ele gostava dela, da mesma maneira que ela gostava dele . 
 - Karen, eu demorei muito? - perguntou ele, segurando as mãos geladas dela.
Ela assentiu com os olhos fixados em um nada. Ele a abraçou, como se sentisse que ela precisasse, e sim, ela precisava.
 - Na verdade eu não moro aqui, e vou embora na manhã seguinte, me desculpe. Eu acho que me apaixonei por você e nem sei se isso é possível ,Karen, eu acho que posso voltar,  pra escapar das novelas, talvez pra lembrar ao amor que ele é bem-vindo por aqui e que não precisa se esconder na televisão. Talvez só pra fazer companhia às estrelas, ou até pra dizer pra você o quanto você é linda.
 Ela o abraçou dessa vez, e dessa vez chorando. Ele deixou escapar umas lágrimas, mas se fez forte, por ela.
 Eles trocaram olhares e assentiram como se tivessem planejado uma fuga em modo discreto .  
 - Para cada lágrima existem dois sorrisos, moça. 
 Karen assentiu.
 Ele a beijou na testa e saiu , dessa vez não olhou pra trás, seu ombro se mexeu como se ele chorasse, e é o que parecia.  Karen sentiu uma gota gelada na bochecha, chuva. Correu para casa, os olhos úmidos de lágrimas, se jogou na cama, e escreveu em seu diário. A começar por desculpas por tê-lo abandonado, então contou a história e no fim percebeu que não havia motivos pra chorar. Muito pelo contrário.
 Ela teve uma novela em dois dias. As pessoas passam um ano, apenas acompanhando uma história, e ela viveu uma.

Querido diário,
 Talvez quando eu fecho os olhos e passo a sonhar, uma estrela se ergue no céu. Talvez aquela estrela, sirva pra alguém se lembrar de que é possível sonhar, e é necessário sonhar. Talvez todos aqueles sonhos no céu juntos sejam para lembrar a cada um que mandou uma estrela pro céu, que eles não estão sozinhos e que o mundo compartilha sonhos, mantém eles acima de tudo, mas ainda assim, mantém todos os sonhos, inalcançáveis.
 Talvez todas aquelas estrelas estejam clamando por companhia, e não apenas sendo companhias. Talvez eu possa não ver o mundo, nem ter um pedaço dele comigo sempre quando quiser. Mas eu tenho o céu, e o céu não é um pedaço do mundo mesmo? 
 Eu queria o Marcos comigo, pra sempre, mas talvez ainda possa acontecer. A vida é predestinada sim , a gente segue um roteiro, tem gente que chama de "destino", eu chamo de caminhos. E sei, diário, que esses caminhos, ainda vão cruzar com os caminhos tortos do Marcos. Sei que esses caminhos ainda vão fazer a gente se entreolhar só pra perguntar nossos nomes de novo, e imagino que todas as borboletas ainda estejam vivas até lá. 
 Quando sentir saudades, as estrelas vão estar ali. E se eu por acaso vier a chorar, bem, para cada lágrima, haverão dois sorrisos.


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2 comentários:

Jessica Gracelli disse...

quanta profundidade em seus textos!minha escritora favorita!

Rafaela Gracelli disse...

Você é suspeita pra falar né hahaha! Obrigada sis.