domingo, 29 de março de 2020

O complemento



 Nenhum elemento tem de deixar de ser o que é, por medo, por ser, por ser só. A aptidão em estar em complemento não faz parte de todos, idem pra solidão. Os olhos de enxergar apenas espelho se rastejaram por tanto tempo, e nunca foi possível notar que o espelho de quem buscava proteção, não passava da mais infame ilusão.
 Com tanto ar pra encher os pulmões, o pequeno espaço de mau humor sempre era a melhor opção pra quem não queria se chatear pela décima vez no dia, mesmo que isso não fosse bom pra quem estivesse em sua volta. E quem liga? 
 E assim dia a dia, passo a passo, cama, café, mesmo humor, mesmo semblante, rotina, dias sem sorrisos, sem abraços, sem medidas, sem memórias, dias sem dias. E pra quê ser diferente?

 E foi.

 O dia em que os olhos perceberam que havia algo de atrativo por detrás do espelho, em que os pulmões gostaram mais do ar que tinha de gostoso o cheiro, os dias tiveram memórias, tiveram humores, sorrisos e pessoas.
 Nenhum elemento tem de deixar de ser o que é por medo, por ser, por ser só. A aptidão em estar em complemento não faz parte de todos, mas começa sozinho, e por dentro.